quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Deus ama os indianos

Estou traduzindo a Encyclopédie du protestantisme para a editora Hagnos, um trabalho que tem me dado muito prazer. (Fiquem de olho: na época da publicação, avisarei!) De vez em quando, como tradutora-leitora, eu me deparo com passagens tão interessantes que não poderia deixar de partilhá-las com os leitores do Tamos Lendo! Esta é do verbete Ásia, subverbete Índia:

"A partir de 1870, os dalit (sociedades oprimidas, consideradas indignas de fazer parte das 'castas' reconhecidas pelas autoridades bramânicas) se converteram em massa; hoje, constituem a maioria da população cristã."

Glória a Deus! Negligenciados e maltratados pelo rígido sistema das castas, os "intocáveis" indianos, a quem estenderam a mão missionários estrangeiros de várias denominações (batistas, luteranas, anglicanas, congregacionais...), encontraram filiação espiritual na Casa de Deus. Ele não abandonou os abandonados da sociedade. Que maravilha de testemunho! Que Deus continue abençoando a igreja indiana.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Exposição de Hebreus III

"Porque, devendo já ser mestres, pelo tempo, ainda tendes necessidade de que vos torne a ensinar os rudimentos dos primeiros princípios do oráculo de Deus; e assim vos tornastes como necessitados de leite, e não de alimento sólido. Porque qualquer um que se alimenta de leite carece de experiência na palavra da justiça, porque ainda é criança." (Hebreus 5.12-13)

Comentário de Calvino sobre as palavras em negrito:

"Tal reprovação contém uma piedosa medida de ferroadas visando a incitar os judeus em sua indolência. O autor diz que era um absurdo, e que deviam envergonhar-se disso, a saber, que estivessem ainda no rol do berço quando deveriam já ser mestres. 'Devíeis ser mestres de outros', diz ele, 'enquanto que na verdade não sois nem ainda alunos capazes de compreender o ensino mais rudimentar. Pois não compreendeis ainda os primeiros rudimentos do cristianismo.' Com o fim de fazê-los ainda mais envergonhados de si mesmos, ele usa as palavras 'primeiros princípios', justamente como alguém fala do alfabeto. Devemos aprender ao longo de toda a vida, porquanto verdadeiramente sábio é aquele que sabe quão longe se acha do perfeito conhecimento. Mas devemos progredir em nossa cultura, a fim de não ficarmos sempre no conhecimento rudimentar. Não deixemos que a profecia de Isaías [28.10] se cumpra em nós: 'Porque é preceito sobre preceito, preceito e mais preceito...'; pelo contrário, é mister que nos esforcemos para que nosso progresso corresponda ao tempo que nos é concedido. Não somente nossos anos, mas também nossos dias devem ser calculados, para que todos nós nos apressemos em direção ao progresso. No entanto, poucos são aqueles que se disciplinam a fazer um balanço do tempo passado, ou que se preocupam com o tempo por vir. Portanto, somos justamente castigados por nossa negligência, visto que a maioria de nós dissipa sua vida nos estágios elementares, como crianças. Somos ainda lembrados de que o dever de cada um de nós é repartir com seus irmãos o conhecimento que tem, a fim de que ninguém guarde sua sabedoria para si mesmo, senão que cada um a use para a edificação mútua."

sábado, 21 de novembro de 2009

Kaspar Hauser

Kaspar Hauser (cuja história inspirou o romance de Jacob Wassermann, publicado pela Topbooks) é um rapaz de quinze anos encontrado em Nuremberg. Seu nível de linguagem e desenvolvimento físico e cognitivo comparava-se ao de um menino de quatro anos. Especula-se que, filho de um nobre, foi vítima de uma conspiração que o privou de ser educado convenientemente. Passa anos em uma caverna, sendo alimentado por pão e água, até que é solto na cidade, onde é recebido por algumas famílias, de casa em casa dos quinze aos dezoito anos, sempre atormentado por sonhos e mergulhado em um indescritível sofrimento por não conhecer sua origem.

O que mais me impressionou, no livro, foi a relação entre Kaspar e seu último preceptor, o prof. Quandt. Apesar de se dispor a abrigar o rapaz, Quandt não acreditava em sua inocência e, como muitos na região, suspeitava de que o protegido fingia o tempo todo para receber casa e cuidados. O trecho adaptado abaixo mostra o quanto Quandt se prestava a malentendidos de toda ordem por estar convicto da culpa do rapaz. Quase enlouquecido, ele pressiona Kaspar para que fale de seu passado.

- Suponha que você está em presença de Deus e que Ele pergunte: De onde vem você? Onde nasceu? Quem lhe deu um nome falso? Como se chamava no berço? Quem lhe ensinou a enganar os homens?

Kaspar ergue-se pesadamente e, com os lábios trêmulos, diz:

— Eu responderia, se o senhor me fizesse semelhantes perguntas. O senhor, porém, não é Deus.

Quandt recua um passo.

— Blasfemador! Vá embora, monstro de impiedade! Não suje por mais tempo o ar que eu respiro!


Descubro, pensativa, que o livro é profundamente revelador de nossa humanidade. De um lado, somos levados a nos identificar com Kaspar nas várias situações em que duvidam injustamente de nossas palavras, de nosso comportamento, de nosso caráter. De outro, somos levados a nos identificar com Quandt em nossas mesquinhas injustiças — em relação aos homens, mas principalmente em relação a Deus, a quem, pressionados pela dor, atribuímos, conscientemente ou não, os defeitos humanos do esquecimento, da displicência, da falta de amor.

É quando é necessária a dupla oração: Deus, perdoa-nos por odiar as pessoas que não nos compreendem ou que estão doentes demais para nos ver como somos. Deus, perdoa-nos por atribuir toda sorte de falsidades ao Senhor quando nos sentimos fracos e confusos diante de um acontecimento terrível.

Livra-nos da mentira, Deus, em todas as suas formas. Amém.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Poemas de amor, poemas de guerra IV

Nunca li uma linha sequer de Baudelaire, mas ele está toda hora se intrometendo na conversa da Norma com Meschonnic. Para ser mais exato, este último é que o introduz na discussão, ao retomar e desenvolver certos elementos de sua teoria da arte. Começa a me parecer que a concepção baudelaireana sobre a literatura e a arte tinha alguns elementos valiosos, entre os quais a elevada importância quase aristotélica atribuída à imaginação, em contraste com a opinião predominante na época. Apesar disso, creio não poder de modo algum endossar certas posições suas, especialmente por sua concepção no mínimo estranha da relação entre a arte e a beleza moral. Não sei ainda o que pensar da totalidade de sua obra, pois é a primeira vez que leio mais de duas linhas sobre o sujeito. Talvez, eu acabe descobrindo que ele ocupa na literatura francesa o posto que Kant ocupa na filosofia ocidental: alguém de méritos intelectuais limitados, mas tão influente que ninguém que se interessa seriamente pelo assunto pode se esquivar de lê-lo. Mesmo que seja esse o caso, porém, Baudelaire tem uma vantagem indiscutível sobre Kant, que é a de escrever infinitamente melhor. Mas quem já leu uma sentença inteira de Kant sabe que escrever melhor que ele não é motivo de orgulho para ninguém.

Baudelaire pode ter atraído minha atenção por ter falado muito sobre um assunto acerca do qual sou conscientemente ignorante: filosofia da estética, da arte, da literatura e da poesia. Não sei se foi por algum preconceito devido à leitura de Sartre, mas o fato é que nunca me interessei muito por literatura francesa. Talvez devesse me interessar mais, dada a tremenda influência cultural da França sobre o Ocidente de modo geral. Devendo ou não, porém, o fato é que o assunto todo está me parecendo muito interessante. A leitura da tese da Norma me deixou com vontade de aprender francês para melhor desbravar esse velho mundo.

Quem ainda não leu, não deixe de ler este post já meio antigo no blog da Norma: Minha pequeníssima história da arte moderna.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Cinco pecados que ameaçam os calvinistas

Farei aqui uma breve reflexão sobre o seguinte trecho, que define o primeiro dos cinco pecados denunciados pelo presbítero Solano Portela nesse belo opúsculo:

"Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo uma atitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se achar possuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude de rejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos Seus servos. Seria achar que somos conhecedores de uma faceta de compreensão que os demais irmãos ainda não alcançaram."

O autor passa a citar uma porção de grupos que, ao longo da história do cristianismo, atribuíram ou atribuem a si próprios essa condição de superioridade, indo dos antigos gnósticos aos modernos pentecostais. Lembrei-me de que eu já havia detectado um fenômeno semelhante fora do cristianismo, e dei-lhe o nome de "religião das elites espirituais". Parece-me que ao menos boa parte das religiões tradicionais contém em si essa divisão: as castas no hinduísmo, o sufismo entre os muçulmanos, o monasticismo na cristandade, o perenialismo como um todo. O orgulho espiritual está presente onde quer que o homem se sinta livre para inventar suas próprias formas de devoção.

Visto não haver pecado mundano que não ameace constantemente a Igreja, tais tentações estão presentes também entre aqueles que estão de fato em comunhão com Deus. O objetivo do presbítero Solano, conforme indica o título, é justamente mostrar que nós, calvinistas, não estamos de modo algum imunes a esse pecado. Deus permita que jamais nos esqueçamos disso.

sábado, 14 de novembro de 2009

Poemas de amor, poemas de guerra III

Ainda longe de atingir a metade da leitura, alguns elementos importantes já podem ser divisados. Meschonnic se opõe a todas as escolas de crítica literária que concentram sua atenção em algum elemento específico - "o autor, o momento histórico, a estrutura formal, o estilo, as produções de leitura" - por julgarem que nele reside o poder de determinar o valor da obra como um todo. Trata-se de um esforço para recuperar a capacidade, aparentemente perdida por todas as grandes escolas do século XX, de apreender a unidade do texto, sem reducionismos, e ao mesmo tempo sem sacrifício da objetividade. Gostei disso. Esse Meschonnic está começando a parecer interessante.

Adendo: Na verdade, este post foi escrito há mais de três semanas. Concluí a leitura da tese há poucos dias. Mas ainda tenho uma porção de comentários a fazer sobre esse trabalho, e os publicarei aqui nos próximos tempos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Tolerância no Novo Testamento

Embora pequeno, esse livrinho traz um estudo muito bem embasado sobre a atitude dos autores neotestamentários diante das ideias que se desviavam da doutrina apostólica. O pastor Augustus demonstra a existência de uma luta consciente dos apóstolos e seus discípulos para preservar imaculado o corpo doutrinário que haviam recebido de Cristo, e que boa parte do Novo Testamento foi escrito justamente com o propósito de combater a apostasia e denunciar os falsos mestres. Não havia transigência nem relativismo quando se tratava de preservar a verdade tal como revelada por Deus, sem adaptações ou acréscimos. Trata-se de um lembrete muito importante nesta época em que têm sido introduzidos na igreja os valores do mundo, resultando em concessões indevidas à pluralidade e à tolerância.

Adendo: Ordenação de mulheres também já foi concluído. Encaminho-me agora para o último livreto do pastor Augustus, o Teologia relacional: suas origens, seus ensinos e suas consequências.